Úlcera venosa e terapia compressiva: guia para Enfermeiros
Postado em 11/10/2026
Sem compressão, a úlcera venosa tende a não fechar ou a voltar. Entenda como avaliar o membro, quando comprimir com segurança e como manter o resultado depois da cicatrização.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaA úlcera venosa resulta da hipertensão venosa crônica nos membros inferiores e costuma aparecer na região do maléolo medial, com bordas irregulares, exsudato e pele ao redor com sinais de estase. A terapia compressiva é o pilar do tratamento e da prevenção de recidiva, mas só deve ser instalada depois de excluir doença arterial significativa, em geral pelo índice tornozelo-braquial (ITB). Pela Resolução Cofen nº 787/2025, o Enfermeiro pode realizar e interpretar o ITB para indicar, prescrever e instalar a terapia compressiva. Diretrizes internacionais também recomendam avaliação vascular para tratar o refluxo venoso.
Por que a úlcera venosa aparece
Quando as válvulas das veias falham ou há obstrução após trombose, o sangue reflui e a pressão venosa nas pernas permanece alta mesmo com a pessoa em movimento. Com o tempo, essa hipertensão venosa provoca edema, alterações inflamatórias da pele e, por fim, ulceração. Na classificação clínica CEAP da doença venosa crônica, a úlcera ativa corresponde à classe C6.
Como diferenciar de outras úlceras de perna
| Característica | Úlcera venosa | Úlcera arterial |
|---|---|---|
| Localização típica | Terço inferior da perna, região maleolar medial | Extremidades, dedos, calcâneo, áreas de atrito |
| Aspecto | Rasa, bordas irregulares, exsudato moderado a intenso | Bordas regulares, aspecto "em saca-bocado", leito pálido, pouco exsudato |
| Pele ao redor | Edema, hiperpigmentação, dermatite ocre, lipodermatoesclerose, eczema | Pele fina, brilhante, fria, rarefação de pelos |
| Dor | Melhora com elevação do membro | Piora com elevação, dor em repouso |
| Pulsos | Geralmente presentes | Diminuídos ou ausentes |
Muitas pessoas têm doença mista, venosa e arterial. Por isso, a avaliação da perfusão é obrigatória antes de qualquer compressão.
ITB: o passo que não pode ser pulado
O índice tornozelo-braquial compara a pressão sistólica no tornozelo com a do braço, medida com doppler vascular portátil. Os pontos de corte variam entre diretrizes, mas uma revisão de diretrizes clínicas mostrou que a maioria considera segura a compressão terapêutica plena com ITB acima de 0,8. Entre aproximadamente 0,5 e 0,8, algumas diretrizes admitem compressão reduzida, com avaliação especializada e monitoramento. Valores muito baixos indicam doença arterial importante, situação em que a compressão deve ser evitada e a pessoa encaminhada ao cirurgião vascular. Valores muito elevados podem indicar artérias pouco compressíveis, comuns em diabetes e doença renal crônica, e pedem outros métodos de avaliação.
Tipos de terapia compressiva
- Bandagens inelásticas ou de curta extensão: geram alta pressão durante a marcha e menor em repouso. Incluem a bota de Unna e as bandagens de curta extensão.
- Sistemas multicamadas: combinam camadas com diferentes funções (acolchoamento, compressão, coesão) e mantêm pressão sustentada por alguns dias.
- Meias de compressão: usadas principalmente após a cicatrização, para prevenir recidiva, e em algumas situações durante o tratamento.
- Sistemas ajustáveis com velcro: permitem que a própria pessoa reajuste a compressão, o que favorece o autocuidado.
- Compressão pneumática intermitente: opção adjuvante em casos selecionados.
Uma revisão Cochrane concluiu que a compressão aumenta as taxas de cicatrização da úlcera venosa em comparação com a ausência de compressão e que sistemas com vários componentes tendem a funcionar melhor do que os de componente único. Além disso, o estudo EVRA mostrou que a ablação endovenosa precoce do refluxo superficial, associada à compressão, acelerou a cicatrização em relação à ablação tardia. Por isso, o encaminhamento para avaliação vascular faz parte do cuidado.
Prevenir a recidiva
A úlcera venosa tem alta tendência a recidivar. Após a cicatrização, a pessoa deve continuar com meias de compressão, manter atividade física, controlar o peso, cuidar da pele e retornar periodicamente. A educação em saúde, com foco em autocuidado e na troca regular das meias, é tão importante quanto o curativo.
Perguntas frequentes
Bota de Unna é a mesma coisa que bandagem multicamadas?
Não. A bota de Unna é uma bandagem inelástica impregnada, enquanto os sistemas multicamadas combinam camadas com funções diferentes. A escolha depende da avaliação, do exsudato, da mobilidade e da tolerância da pessoa.
Quem não caminha se beneficia da compressão?
Bandagens inelásticas dependem da contração da panturrilha. Em pessoas acamadas ou com tornozelo rígido, o benefício pode ser menor e a escolha do sistema precisa ser individualizada.
O técnico de enfermagem pode instalar a compressão?
O técnico pode realizar curativos conforme prescrição e supervisão do Enfermeiro. A avaliação com ITB e a indicação da terapia compressiva são atribuições do Enfermeiro.
Avaliação vascular, ITB e terapia compressiva fazem parte da Habilitação em Tratamento de Feridas do Grupo Nobre.
Referências
- O'Donnell TF Jr, Passman MA, Marston WA, Ennis WJ, Dalsing M, Kistner RL, et al. Management of venous leg ulcers: clinical practice guidelines of the Society for Vascular Surgery and the American Venous Forum. J Vasc Surg. 2014;60(2 Suppl):3S-59S.
- De Maeseneer MG, Kakkos SK, Aherne T, Baekgaard N, Black S, Blomgren L, et al. European Society for Vascular Surgery (ESVS) 2022 Clinical Practice Guidelines on the Management of Chronic Venous Disease of the Lower Limbs. Eur J Vasc Endovasc Surg. 2022;63(2):184-267.
- O'Meara S, Cullum N, Nelson EA, Dumville JC. Compression for venous leg ulcers. Cochrane Database Syst Rev. 2012;11:CD000265.
- Gohel MS, Heatley F, Liu X, Bradbury A, Bulbulia R, Cullum N, et al. A randomized trial of early endovenous ablation in venous ulceration. N Engl J Med. 2018;378(22):2105-14.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787, de 21 de agosto de 2025. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação de pessoas com lesões cutâneas.
