Avaliação de feridas: acrônimo TIME e TIMERS
Postado em 11/10/2026
Tecido, infecção, umidade e bordas: um roteiro simples para avaliar o leito da ferida, decidir a conduta e acompanhar a cicatrização sem esquecer reparo e fatores sociais.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaTIME é um acrônimo usado para avaliar e preparar o leito da ferida: T de tecido (inviável ou deficiente), I de infecção ou inflamação, M de umidade (moisture) e E de bordas (edge). A versão ampliada, TIMERS, publicada em 2019, acrescenta R de reparo e regeneração e S de fatores sociais e individuais. O método orienta a sequência do cuidado, mas não substitui a avaliação global da pessoa, da causa da lesão e das comorbidades. No Brasil, a avaliação e a prescrição do cuidado com lesões cutâneas cabem ao Enfermeiro, conforme a Resolução Cofen nº 787/2025.
De onde veio o TIME
O conceito de preparo do leito da ferida (wound bed preparation) organizou, no início dos anos 2000, uma ideia central: feridas crônicas não cicatrizam porque algo no leito, na pessoa ou no ambiente está travando o processo. Em 2003, Schultz e colaboradores publicaram o acrônimo TIME como um roteiro para identificar essas barreiras e agir sobre elas de forma sistemática.
Em 2019, um grupo de especialistas propôs o TIMERS, que acrescenta duas letras para lembrar que o cuidado não termina no leito da ferida: é preciso pensar em terapias avançadas quando a lesão não evolui e considerar a vida da pessoa que convive com ela.
O que cada letra avalia
| Letra | O que observar | Objetivo da conduta |
|---|---|---|
| T: tecido | Necrose seca ou úmida, esfacelo, tecido de granulação pálido ou friável | Remover tecido inviável e favorecer leito viável |
| I: infecção ou inflamação | Sinais locais (dor nova ou crescente, calor, edema, odor, exsudato purulento, granulação friável) e sinais sistêmicos; suspeita de biofilme | Reduzir carga microbiana e tratar infecção conforme protocolo e prescrição |
| M: umidade | Volume e aspecto do exsudato, maceração ou ressecamento das bordas | Manter ambiente úmido equilibrado |
| E: bordas | Bordas epíbole (enroladas), descoladas, hiperqueratose, pele perilesional | Estimular a migração epitelial e proteger a pele ao redor |
| R: reparo e regeneração | Ferida que não reduz de área apesar do cuidado adequado | Considerar terapias adjuvantes e encaminhamento |
| S: fatores sociais e individuais | Adesão, mobilidade, nutrição, renda, apoio familiar, dor, autoimagem | Plano de cuidado viável para a realidade da pessoa |
Como aplicar na consulta de enfermagem
O TIME funciona melhor quando entra depois de uma avaliação ampla. Antes de olhar para o leito, o Enfermeiro investiga a etiologia (venosa, arterial, neuropática, por pressão, traumática, cirúrgica), as doenças de base, os medicamentos em uso, o estado nutricional e a perfusão do membro. Uma ferida arterial, por exemplo, pode exigir conduta conservadora com o tecido necrótico seco até a avaliação vascular, mesmo que o acrônimo sugira remoção de tecido inviável.
- Identifique a causa. Sem tratar a causa (pressão, estase venosa, isquemia, glicemia descontrolada), nenhuma cobertura resolve.
- Meça e fotografe. Comprimento, largura e profundidade, presença de túneis e descolamentos, sempre com o mesmo método para permitir comparação.
- Percorra as letras. Registre o percentual aproximado de cada tipo de tecido, o exsudato, os sinais de infecção e a condição das bordas e da pele perilesional.
- Defina a conduta por letra. Limpeza, desbridamento, cobertura, controle de exsudato e proteção da pele devem responder ao achado de cada item.
- Reavalie com prazo. Combine uma data de reavaliação. Se a ferida não evolui no período esperado para aquela etiologia, revise o diagnóstico e o plano.
Erros comuns na avaliação
- Olhar só a ferida. Ignorar perfusão, nutrição e controle glicêmico leva a trocas repetidas de cobertura sem resultado.
- Confundir colonização com infecção. Toda ferida crônica tem microrganismos. A decisão de tratar infecção depende de sinais clínicos e, quando indicado, de coleta adequada de material.
- Registro vago. Expressões como "ferida em bom aspecto" não permitem comparar evolução. Descreva tecido, medidas, exsudato e bordas.
- Trocar de produto a cada curativo. Mudanças frequentes, sem reavaliação estruturada, dificultam saber o que funcionou.
Perguntas frequentes
TIME e TIMERS são escalas?
Não. São roteiros de avaliação e conduta. Para medir evolução, use também uma escala validada e medidas padronizadas da lesão.
O TIME serve para qualquer ferida?
Foi pensado principalmente para feridas crônicas ou de difícil cicatrização. Em feridas agudas e cirúrgicas, os princípios ajudam, mas o foco costuma ser outro, como proteção da incisão e prevenção de infecção.
O técnico de enfermagem pode fazer a avaliação pelo TIME?
O técnico observa e registra as características da lesão e comunica alterações. A avaliação clínica completa, o diagnóstico de enfermagem e a prescrição do cuidado cabem ao Enfermeiro.
Aprofunde avaliação, escolha de coberturas e registro na Habilitação em Tratamento de Feridas do Grupo Nobre.
Referências
- Schultz GS, Sibbald RG, Falanga V, Ayello EA, Dowsett C, Harding K, et al. Wound bed preparation: a systematic approach to wound management. Wound Repair Regen. 2003;11 Suppl 1:S1-28.
- Atkin L, Bućko Z, Conde Montero E, Cutting K, Moffatt C, Probst A, et al. Implementing TIMERS: the race against hard-to-heal wounds. J Wound Care. 2019;28(Sup3a):S1-S49.
- International Wound Infection Institute. Wound infection in clinical practice: principles of best practice. London: Wounds International; 2022.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787, de 21 de agosto de 2025. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação de pessoas com lesões cutâneas.
