Coberturas para feridas: guia por tipo de lesão

Coberturas para feridas: guia por tipo de lesão

Postado em 11/10/2026

Não existe cobertura ideal para toda ferida. Existe a cobertura certa para o tecido, o volume de exsudato e o momento da cicatrização que você encontrou na avaliação.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaA escolha da cobertura parte da avaliação da ferida: tipo de tecido no leito, quantidade de exsudato, sinais de infecção, profundidade e condição da pele ao redor. Como regra geral, hidrogel hidrata leitos secos, alginato e espumas absorvem exsudato moderado a intenso, hidrocoloide atende feridas superficiais com pouco exsudato, e coberturas com prata ou PHMB são opções quando há infecção local ou suspeita de alta carga microbiana. A cobertura não trata a causa da lesão. Pela Resolução Cofen nº 787/2025, indicar e prescrever coberturas é atribuição do Enfermeiro capacitado.

O princípio que orienta tudo: meio úmido equilibrado

Em 1962, George Winter demonstrou em modelo animal que feridas mantidas úmidas sob filme oclusivo reepitelizavam mais rápido do que feridas expostas ao ar, que formavam crosta. Desde então, o objetivo das coberturas modernas é manter um ambiente úmido, sem encharcar o leito nem macerar as bordas. Por isso, a pergunta central na escolha é: este leito precisa ganhar ou perder umidade?

Antes de escolher o produto, faça a avaliação estruturada (por exemplo, pelo acrônimo TIMERS), trate a causa da lesão e limpe o leito adequadamente. A cobertura é a última peça do plano, não a primeira.

Guia rápido por situação clínica

Situação do leitoObjetivoOpções de cobertura
Necrose seca ou esfacelo aderido, pouco exsudatoHidratar e favorecer o desbridamento autolíticoHidrogel com cobertura secundária; hidrocoloide em lesões superficiais
Granulação limpa, pouco exsudatoProteger e manter umidadeHidrocoloide, espuma fina, interface não aderente, filme em lesões muito superficiais
Exsudato moderado a intensoAbsorver e proteger as bordasAlginato de cálcio, fibra gelificante (hidrofibra), espumas de poliuretano
Cavidades e túneisPreencher o espaço morto sem compactarAlginato ou fibra gelificante em fita, com cobertura secundária
Sinais de infecção local ou suspeita de biofilmeReduzir carga microbianaCoberturas com prata, PHMB ou outros antissépticos, por tempo definido e com reavaliação
Odor intensoControlar odor enquanto se trata a causaCarvão ativado, geralmente associado a agente antimicrobiano
Pele íntegra em risco ou perilesional frágilProtegerÁcidos graxos essenciais, protetores cutâneos em película, espumas de silicone

As principais famílias de coberturas

  • Hidrogel: gel com alto teor de água que doa umidade ao leito. Útil em necrose seca e esfacelo. Evite em feridas muito exsudativas, pelo risco de maceração.
  • Hidrocoloide: placa que forma gel em contato com o exsudato. Indicada para feridas superficiais com pouco a moderado exsudato. Não é a melhor escolha para feridas infectadas ou muito exsudativas.
  • Alginato de cálcio: fibras derivadas de algas que absorvem exsudato e formam gel. Possui ação hemostática leve, útil em pequenos sangramentos de leito. Precisa de cobertura secundária.
  • Fibra gelificante (hidrofibra): absorve e retém exsudato verticalmente, protegendo as bordas. Há versões com prata.
  • Espuma de poliuretano: absorve exsudato, amortece pressão e pode ter borda adesiva de silicone, que reduz trauma na retirada.
  • Filme transparente: permite visualizar a área e protege contra contaminação externa. Não absorve exsudato.
  • Antimicrobianas: prata, PHMB, iodo cadexômero e outros. Devem ter indicação clara, prazo de uso e critério de suspensão.
  • Interfaces não aderentes: malhas de silicone ou petrolato que evitam aderência ao leito e reduzem dor na troca.

Quando a ferida não responde

Se a lesão não reduz de tamanho após algumas semanas de cuidado adequado, o problema raramente é só a cobertura. Revise a etiologia, a perfusão, o controle glicêmico, a nutrição, a pressão sobre a área e a adesão ao plano. Considere investigar infecção profunda ou biofilme e discutir terapias adjuvantes, como terapia por pressão negativa ou laser de baixa potência, previstas na Resolução Cofen nº 787/2025 para o Enfermeiro capacitado.

Perguntas frequentes

Hidrocoloide pode ser usado em ferida infectada?

Em geral, não é a primeira escolha, porque é oclusivo e pouco absorvente. Em feridas com sinais de infecção, prefira coberturas que permitam controle do exsudato e ação antimicrobiana, conforme protocolo.

Posso usar prata por tempo indeterminado?

Não é recomendado. Coberturas antimicrobianas devem ter prazo definido, com reavaliação. Se a infecção local foi controlada, troque para uma cobertura sem antimicrobiano.

O técnico de enfermagem pode escolher a cobertura?

O técnico executa o curativo conforme a prescrição do Enfermeiro e comunica alterações. A seleção e a prescrição da cobertura são atribuições do Enfermeiro.

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Referências

  1. Winter GD. Formation of the scab and the rate of epithelization of superficial wounds in the skin of the young domestic pig. Nature. 1962;193:293-4.
  2. Atkin L, Bućko Z, Conde Montero E, Cutting K, Moffatt C, Probst A, et al. Implementing TIMERS: the race against hard-to-heal wounds. J Wound Care. 2019;28(Sup3a):S1-S49.
  3. International Wound Infection Institute. Wound infection in clinical practice: principles of best practice. London: Wounds International; 2022.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Manual do pé diabético: estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica. Brasília: Ministério da Saúde; 2016.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787, de 21 de agosto de 2025. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação de pessoas com lesões cutâneas.
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