Acesso venoso periférico em pediatria: técnica e cuidados
Postado em 11/10/2026
Puncionar uma veia de criança exige mais do que habilidade manual. Planejamento, preparo da criança e da família, tecnologia de visualização e vigilância do sítio fazem a diferença entre um acesso seguro e uma sequência de tentativas.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaO acesso venoso periférico em pediatria começa pela pergunta se ele é realmente necessário e se é o dispositivo adequado para a terapia, como orienta o guia miniMAGIC. Em seguida, o Enfermeiro avalia a rede venosa, identifica a criança com acesso venoso difícil, escolhe o menor calibre que atenda à terapia e o sítio que preserve a mobilidade. A técnica inclui preparo da criança e da família, medidas de alívio da dor, antissepsia adequada à idade e limite de tentativas definido em protocolo. Depois, a fixação deve permitir a visualização do sítio, que é avaliado com frequência para detectar infiltração precocemente.
Antes de puncionar: indicação e dispositivo
Na criança, cada punção tem custo de dor, medo e esgotamento da rede venosa. O guia miniMAGIC, publicado em 2020 por especialistas para orientar a escolha de dispositivos intravenosos em pediatria, recomenda pensar no tratamento inteiro: tipo de solução, duração prevista e características do paciente. Terapias longas ou com soluções incompatíveis com veia periférica podem justificar desde o início um cateter de linha média ou um PICC, evitando punções repetidas.
Avaliação da rede venosa e acesso difícil
Observe e palpe as veias, avalie hidratação, perfusão, temperatura das extremidades, histórico de punções e de prematuridade. Ferramentas como o escore DIVA, desenvolvido para predizer acesso venoso difícil em crianças, consideram visibilidade e palpabilidade da veia, idade e história de prematuridade. Quando a criança é classificada como acesso difícil, o ideal é acionar desde o início um profissional mais experiente ou usar tecnologia de visualização.
| Recurso | Como ajuda |
|---|---|
| Transiluminação | Útil em neonatos e lactentes, evidencia veias superficiais |
| Visualizador por luz infravermelha | Mostra o trajeto de veias superficiais e bifurcações |
| Ultrassonografia | Permite puncionar veias mais profundas, não visíveis nem palpáveis |
Escolha do sítio e do cateter
- Sítios preferenciais: dorso da mão, antebraço e veias do dorso do pé em lactentes que ainda não andam. Em neonatos, o couro cabeludo pode ser utilizado conforme protocolo do serviço.
- Preserve a função: evite a mão que a criança usa para chupar o dedo ou a mão dominante na criança maior, e prefira áreas que não fiquem em flexão.
- Evite: áreas com lesão, flebite prévia, membros com fístula ou com outro dispositivo, e regiões de flexão quando houver alternativa.
- Calibre: o menor calibre e o menor comprimento que atendam à terapia prescrita, o que reduz trauma da veia e risco de complicações.
Técnica com foco na criança
- Prepare a criança e a família: explique de forma adequada à idade, use brinquedo terapêutico quando possível e convide os pais a participar do conforto, não da contenção.
- Alivie a dor: em neonatos, use amamentação, sucção não nutritiva e solução adocicada conforme protocolo. Em crianças maiores, distração e anestésico tópico conforme prescrição e tempo de ação.
- Posicione com conforto: posições de colo ou sentada costumam reduzir o medo em relação à contenção deitada.
- Faça a antissepsia: clorexidina alcoólica é a escolha habitual. Em prematuros e lactentes muito jovens, use com cautela pelo risco de lesão química da pele, seguindo o protocolo institucional.
- Respeite o limite de tentativas: o número máximo por profissional e no total deve estar no protocolo. Depois disso, escalone para profissional mais experiente ou tecnologia de visualização.
- Fixe e identifique: cobertura estéril transparente, sem garroteamento por fitas circulares, com data e responsável registrados.
Manutenção e prevenção de complicações
A infiltração e o extravasamento são as complicações mais temidas em pediatria, porque a criança pode não referir dor e o volume de tecido é pequeno. Avalie o sítio em intervalos curtos, definidos no protocolo, comparando com o membro oposto quanto a edema, cor, temperatura, enchimento capilar e dor à palpação. Em bombas de infusão, alarme de pressão não detecta todas as infiltrações. A Anvisa orienta não trocar rotineiramente o cateter periférico em neonatos e crianças, mas remover quando houver complicação, quando não for mais necessário ou ao fim da terapia.
Perguntas frequentes
Os pais devem segurar a criança durante a punção?
O ideal é que os pais participem do conforto e da distração, não da contenção. Posições de colo ajudam a criança a se sentir segura.
Quando trocar o cateter periférico em criança?
Em pediatria, a troca não é feita por tempo fixo. O cateter é retirado quando há sinais de complicação, quando não é mais necessário ou ao fim da terapia.
Ultrassom vale a pena para acesso periférico pediátrico?
Em crianças com acesso venoso difícil, a ultrassonografia permite acessar veias não visíveis, desde que o profissional seja treinado na técnica.
Avaliação de rede venosa, escolha de dispositivos e prevenção de complicações são temas da Habilitação em Terapia Infusional e Acessos Vasculares do Grupo Nobre.
Referências
- Ullman AJ, Bernstein SJ, Brown E, et al. The Michigan Appropriateness Guide for Intravenous Catheters in Pediatrics: miniMAGIC. Pediatrics. 2020;145(Suppl 3):S269-S284.
- Nickel B, Gorski L, Kleidon T, et al. Infusion Therapy Standards of Practice. 9th ed. J Infus Nurs. 2024;47(1S Suppl 1):S1-S285.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Medidas de prevenção de infecção relacionada à assistência à saúde. Brasília: Anvisa; 2017.
- Yen K, Riegert A, Gorelick MH. Derivation of the DIVA score: a clinical prediction rule for the identification of children with difficult intravenous access. Pediatr Emerg Care. 2008;24(3):143-7.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Processo de Enfermagem.
