Úlcera arterial: como diferenciar e cuidar
Postado em 11/10/2026
Tratar uma úlcera arterial como se fosse venosa pode custar um membro. A diferenciação começa na história, passa pelo exame dos pés e se confirma com o índice tornozelo-braço.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaA úlcera arterial resulta da isquemia causada pela doença arterial periférica. Costuma surgir em dedos, calcâneo, maléolo lateral e pontos de trauma, com bordas bem delimitadas, leito pálido ou necrótico, pouco exsudato e dor intensa que piora com o membro elevado. Pela diretriz europeia de 2024, um índice tornozelo-braço (ITB) igual ou menor que 0,90 confirma doença arterial periférica, e valores acima de 1,40 indicam artérias não compressíveis. O cuidado de enfermagem inclui encaminhar para avaliação vascular, não aplicar compressão, proteger o pé de trauma, manter necrose seca estável sem desbridar até a definição da conduta vascular e controlar dor e fatores de risco.
Por que a úlcera arterial é diferente
Na doença arterial periférica, geralmente de origem aterosclerótica, o fluxo de sangue que chega ao membro é insuficiente para manter os tecidos e, principalmente, para cicatrizá-los após um trauma pequeno, como o atrito de um calçado. Sem restaurar a perfusão, nenhuma cobertura resolve. Por isso, o primeiro passo diante de qualquer ferida em membro inferior é avaliar a circulação arterial. Tabagismo, diabetes, hipertensão, dislipidemia, idade avançada e doença renal crônica aumentam o risco.
Arterial ou venosa: como diferenciar
| Característica | Úlcera arterial | Úlcera venosa |
|---|---|---|
| Localização | Dedos, calcâneo, maléolo lateral, região pré-tibial, pontos de pressão ou trauma | Terço distal da perna, frequentemente acima do maléolo medial |
| Bordas | Regulares, bem delimitadas, aspecto de saca-bocado | Irregulares, rasas |
| Leito | Pálido, pouca granulação, necrose seca ou esfacelo | Granulação vermelha, esfacelo amarelado |
| Exsudato | Pouco | Moderado a abundante |
| Dor | Intensa, piora com o membro elevado e à noite, alivia com o membro pendente | Variável, melhora com elevação |
| Pele ao redor | Fria, fina, brilhante, sem pelos, unhas espessadas, enchimento capilar lento | Edema, hiperpigmentação, eczema, endurecimento |
| Pulsos distais | Diminuídos ou ausentes | Geralmente presentes |
| ITB | Igual ou menor que 0,90 | Geralmente dentro da normalidade |
Úlceras mistas, com componente venoso e arterial, existem e exigem cuidado redobrado. No paciente com diabetes, a neuropatia pode mascarar a dor isquêmica, e a calcificação arterial pode elevar falsamente o ITB.
O índice tornozelo-braço na prática
O ITB é a razão entre a maior pressão sistólica medida no tornozelo (artérias tibial posterior e pediosa) e a maior pressão sistólica braquial, obtidas com esfigmomanômetro e Doppler vascular portátil, com o paciente em decúbito dorsal e em repouso.
- Igual ou menor que 0,90: confirma doença arterial periférica, segundo a diretriz de 2024 da Sociedade Europeia de Cardiologia.
- Acima de 1,40: sugere artérias não compressíveis, comuns em diabetes e doença renal crônica. Nesses casos, a mesma diretriz recomenda medir o índice hálux-braço, com valor patológico usual igual ou menor que 0,70.
O resultado do ITB orienta o encaminhamento e define se a terapia compressiva pode ou não ser considerada. Pela Resolução Cofen nº 787/2025, realizar e interpretar o ITB está entre as competências do Enfermeiro no cuidado de lesões cutâneas.
Cuidados de enfermagem
- Encaminhe para avaliação vascular. A revascularização, quando possível, é o tratamento que permite a cicatrização.
- Não aplique compressão em úlcera arterial ou mista sem definição da equipe vascular.
- Necrose seca estável em membro isquêmico deve ser mantida seca e protegida, sem desbridamento, até a avaliação vascular. Desbridar tecido sem perfusão pode ampliar a área de necrose.
- Escolha coberturas que mantenham o equilíbrio de umidade sem macerar, protejam de trauma e permitam inspeção frequente. Evite oclusão em feridas isquêmicas com sinais de infecção.
- Controle a dor com analgesia conforme prescrição e registro sistemático da intensidade.
- Proteja o pé: calçado adequado, meias sem costura apertada, inspeção diária, hidratação da pele íntegra sem aplicar entre os dedos.
- Atue nos fatores de risco: apoio à cessação do tabagismo, controle glicêmico e pressórico, adesão aos medicamentos prescritos e caminhada supervisionada quando indicada pela equipe.
Perguntas frequentes
Posso usar bota de Unna em úlcera arterial?
Não. A bota de Unna e outras formas de compressão são indicadas para úlcera venosa com perfusão arterial adequada. Em úlcera arterial, a compressão pode agravar a isquemia.
Por que a dor melhora com a perna para baixo?
Com o membro pendente, a gravidade ajuda o sangue a chegar ao pé. Por isso muitos pacientes dormem sentados ou com a perna para fora da cama, o que é um sinal clínico importante na anamnese.
Laser ajuda na úlcera arterial?
Terapias adjuvantes só fazem sentido depois da avaliação vascular e dentro de um plano que trate a causa. Sem perfusão adequada, nenhuma tecnologia local substitui a revascularização.
Diagnóstico diferencial, ITB e plano de cuidado no MBA em Dermatologia e Tratamento de Feridas do Grupo Nobre.
Referências
- Mazzolai L, Teixido-Tura G, Lanzi S, Boc V, Bossone E, Brodmann M, et al. 2024 ESC Guidelines for the management of peripheral arterial and aortic diseases. Eur Heart J. 2024;45(36):3538-700.
- Conte MS, Bradbury AW, Kolh P, White JV, Dick F, Fitridge R, et al. Global vascular guidelines on the management of chronic limb-threatening ischemia. J Vasc Surg. 2019;69(6S):3S-125S.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787/2025. Atuação da equipe de enfermagem em lesões cutâneas.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Implementação do Processo de Enfermagem.
