Dermatite associada à incontinência: prevenir e tratar
Postado em 11/10/2026
A DAI é frequente em pacientes acamados e é muitas vezes confundida com lesão por pressão. Saber diferenciar muda a conduta, o registro e os indicadores do serviço.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaDermatite associada à incontinência (DAI) é uma dermatite irritativa de contato causada pela exposição da pele à urina e às fezes. Ela aparece como eritema difuso, de bordas mal definidas, no períneo, nas nádegas, na prega interglútea e na face interna das coxas, com ou sem perda superficial de pele. Diferente da lesão por pressão, não depende de proeminência óssea. O tratamento se apoia em limpar com produto suave de pH próximo ao da pele, proteger com barreira cutânea e controlar a incontinência, e a gravidade pode ser classificada pela ferramenta GLOBIAD.
O que causa a DAI
A urina e as fezes alteram o pH da pele, aumentam a umidade e expõem a epiderme a enzimas digestivas, sobretudo nas fezes líquidas. A pele hiper-hidratada fica mais permeável e mais frágil à fricção. O documento de consenso do painel internacional sobre DAI, publicado pela Wounds International em 2015, aponta como fatores de risco principais:
- incontinência fecal ou dupla (urinária e fecal), que traz mais risco do que a urinária isolada;
- episódios frequentes de incontinência;
- uso de produtos de contenção oclusivos;
- pele já fragilizada, mobilidade reduzida, alteração cognitiva e dependência para higiene;
- dor, febre, alguns medicamentos, desnutrição e doença crítica.
O mesmo consenso destaca que a idade, isoladamente, não é fator de risco independente: o que pesa é o conjunto de condições que costuma acompanhar o envelhecimento.
DAI ou lesão por pressão?
Confundir as duas é um erro comum e tem consequências: a DAI não deve ser registrada como lesão por pressão estágio 2, como reforça a Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023. Use a comparação abaixo.
| Critério | DAI | Lesão por pressão |
|---|---|---|
| Causa | Contato com urina ou fezes | Pressão ou pressão associada a cisalhamento |
| Localização | Períneo, nádegas, prega interglútea, coxas | Sobre proeminências ósseas ou sob dispositivos |
| Bordas | Difusas, mal definidas, em manchas | Bem delimitadas |
| Profundidade | Superficial: eritema com ou sem perda parcial da pele | Do eritema que não embranquece até perda total da pele |
| Tecido inviável | Ausente | Pode haver esfacelo ou necrose |
| Sintomas | Ardor e prurido | Dor local |
As duas podem coexistir no mesmo paciente. O consenso internacional observa que, em casos duvidosos, a resposta ao cuidado estruturado ao longo de alguns dias ajuda a esclarecer o diagnóstico. Em peles escuras, o eritema pode parecer mais pálido, arroxeado ou acastanhado, o que exige inspeção cuidadosa e boa iluminação.
Classificação pelo GLOBIAD
A Ghent Global IAD Categorisation Tool (GLOBIAD), desenvolvida por grupo internacional coordenado por pesquisadores da Universidade de Ghent, classifica a DAI em quatro categorias:
- 1A: eritema persistente sem sinais clínicos de infecção.
- 1B: eritema persistente com sinais clínicos de infecção.
- 2A: perda de pele sem sinais clínicos de infecção.
- 2B: perda de pele com sinais clínicos de infecção.
Lesões satélites e descamação esbranquiçada ao redor sugerem infecção fúngica; alteração de cor do leito, exsudato purulento ou excessivo sugerem infecção bacteriana. Nessas situações, o Enfermeiro registra os achados e articula com a equipe a investigação e o tratamento, dentro do protocolo institucional.
Cuidado estruturado: limpar, proteger, restaurar
O consenso internacional organiza o cuidado em dois passos essenciais e um complementar:
- Limpar: remover urina e fezes logo após cada episódio, com técnica suave e mínima fricção. Prefira limpadores com pH próximo ao da pele, de preferência sem enxágue, e panos macios. O sabão comum é alcalino e agride a barreira cutânea.
- Proteger: aplicar barreira em toda a pele que tem ou pode ter contato com o efluente. Há protetores à base de petrolato, óxido de zinco, dimeticona e películas de terpolímero de acrilato; os filmes transparentes permitem inspecionar a pele sem retirada.
- Restaurar (quando indicado): hidratantes que apoiam a função de barreira, evitando umectantes em pele já macerada.
Em paralelo, investigue e trate a causa da incontinência, reavalie o uso de fraldas e absorventes oclusivos, ajuste a frequência de troca e envolva a família e a equipe técnica na rotina.
Perguntas frequentes
Pomada antifúngica resolve a DAI?
Só quando há infecção fúngica associada. A base do tratamento é limpar e proteger. O antifúngico entra conforme avaliação e protocolo, sem substituir a barreira.
Fralda é proibida em quem tem DAI?
Não, mas produtos oclusivos aumentam o risco. Prefira absorventes que mantenham a pele seca, troque logo após cada episódio e avalie alternativas, como dispositivos coletores, quando indicados.
Água e sabão servem para limpar?
Na falta de limpador específico, água com sabão suave é aceitável, mas o sabão comum alcalino deve ser evitado. Limpadores sem enxágue de pH próximo ao da pele reduzem fricção e tempo de cuidado.
Dermatites, estomias e feridas com abordagem especializada no MBA em Enfermagem em Estomaterapia do Grupo Nobre.
Referências
- Beeckman D, et al. Incontinence-associated dermatitis: moving prevention forward. Proceedings of the Global IAD Expert Panel. London: Wounds International; 2015.
- Beeckman D, Van den Bussche K, Alves P, et al. The Ghent Global IAD Categorisation Tool (GLOBIAD). Ghent University; 2017.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Nota Técnica GVIMS/GGTES/Anvisa nº 05/2023. Práticas de segurança do paciente em serviços de saúde: prevenção de lesão por pressão. Brasília: Anvisa; 2023.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787/2025. Atuação da equipe de enfermagem em lesões cutâneas.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Implementação do Processo de Enfermagem.
