Acesso intraósseo: indicações, técnica e o papel do Enfermeiro
Postado em 30/05/2026
Quando a veia não aparece e o tempo é curto, o intraósseo garante a via em segundos. Entenda a técnica e as regras do Cofen.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaO acesso intraósseo (IO) é uma via vascular de emergência: a agulha atinge a cavidade medular, cujos vasos não colabam no choque. É indicado quando o acesso venoso periférico falha ou não é viável em parada cardiorrespiratória, choque ou hipovolemia grave. Na equipe de enfermagem, a punção é privativa do Enfermeiro capacitado em curso presencial com prática simulada (Resolução Cofen nº 648/2020).
Por que o intraósseo funciona
A medula óssea é drenada por uma rede de sinusoides venosos sustentados por osso, que não colapsam mesmo em choque profundo ou parada cardiorrespiratória. Por isso, tudo o que é infundido na cavidade medular chega rapidamente à circulação venosa central. Na prática, medicamentos, cristaloides e hemocomponentes podem ser administrados por via intraóssea com efeito comparável ao da via venosa.
Indicações
- Parada cardiorrespiratória sem acesso venoso disponível.
- Choque de qualquer etiologia com veias periféricas inacessíveis.
- Hipovolemia grave por hemorragia, desidratação ou queimadura extensa, especialmente em crianças.
- Estado de mal epiléptico e outras emergências em que a via venosa falhou.
As diretrizes da American Heart Association orientam tentar primeiro o acesso venoso periférico em adultos e considerar o intraósseo quando ele não é obtido ou não é viável. Em pediatria, o IO é alternativa precoce e bem estabelecida.
Contraindicações
- Fratura no osso escolhido ou trauma proximal ao sítio.
- Tentativa de IO no mesmo osso nas últimas 24 a 48 horas.
- Infecção, queimadura ou celulite no local.
- Prótese ou cirurgia ortopédica prévia na região.
- Doenças ósseas graves, como osteogênese imperfeita, e incapacidade de identificar os pontos anatômicos.
Sítios mais usados
| Sítio | Quando usar | Observação |
|---|---|---|
| Úmero proximal | Adultos | Fluxo alto e proximidade da circulação central. Exige rotação interna do braço e boa técnica |
| Tíbia proximal | Adultos, crianças e lactentes | Sítio clássico, superfície plana e fácil de localizar |
| Tíbia distal | Adultos e crianças | Alternativa quando a tíbia proximal não está disponível |
| Fêmur distal | Lactentes e crianças pequenas | Útil quando os sítios tibiais estão comprometidos |
Técnica em linhas gerais
- Escolha o dispositivo e o tamanho de agulha adequados à idade e ao tecido subcutâneo. A Resolução Cofen nº 648/2020 recomenda dispositivos próprios para IO registrados na Anvisa e veda agulhas hipodérmicas e cateteres sobre agulha.
- Localize os pontos anatômicos e faça a antissepsia.
- Insira a agulha perpendicular ao osso, com dispositivo manual, de impacto ou motorizado, até a perda de resistência ao entrar na cavidade medular.
- Confirme a posição: agulha firme sem apoio, flushing livre sem extravasamento e, quando possível, aspiração de medula.
- No paciente consciente, a dor da infusão é intensa. A analgesia com lidocaína sem conservantes antes do flushing segue prescrição e protocolo.
- Faça flushing (em adultos, cerca de 10 mL de soro fisiológico) e infunda sob pressão, porque a via medular oferece resistência.
- Fixe, identifique com data e hora e reavalie o membro com frequência.
Por que ainda é pouco usado no Brasil
A principal barreira descrita é a falta de treinamento prático e de dispositivos disponíveis nos serviços. Equipes que não treinam a técnica tendem a insistir em punções venosas que falham, atrasando drogas vasoativas e a reposição volêmica nos minutos mais críticos. A revalidação periódica da habilidade, prevista na própria resolução do Cofen, é o que mantém a técnica segura.
Perguntas frequentes
Técnico de enfermagem pode puncionar intraósseo?
Não. Pela Resolução Cofen nº 648/2020, na equipe de enfermagem a punção intraóssea é privativa do Enfermeiro capacitado.
Curso online habilita para intraósseo?
Não sozinho. A resolução exige curso presencial com teoria e prática simulada. Conteúdo teórico a distância pode complementar, mas a prática presencial é obrigatória.
Quanto tempo o intraósseo pode ficar?
É um acesso temporário. Deve ser trocado por acesso venoso assim que possível, em geral em até 24 horas ou conforme o fabricante do dispositivo.
Quais medicamentos podem ser dados por IO?
Em geral, os mesmos da via venosa na emergência, incluindo drogas de reanimação, cristaloides e hemocomponentes, conforme prescrição.
Teoria e prática simulada como exige a Resolução Cofen 648/2020, na Habilitação em Dispositivo Intraósseo do Grupo Nobre.
Referências
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 648, de 16 de setembro de 2020. Normatiza a punção intraóssea pelo Enfermeiro em situações de urgência e emergência.
- Panchal AR, Bartos JA, Cabañas JG, et al. Part 3: Adult Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2020;142(16 Suppl 2):S366-S468. doi:10.1161/CIR.0000000000000916.
- Topjian AA, Raymond TT, Atkins D, et al. Part 4: Pediatric Basic and Advanced Life Support: 2020 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Circulation. 2020;142(16 Suppl 2):S469-S523. doi:10.1161/CIR.0000000000000901.
- Nickel B, Gorski L, Kleidon T, et al. Infusion Therapy Standards of Practice, 9th Edition. J Infus Nurs. 2024;47(1S Suppl 1):S1-S285. doi:10.1097/NAN.0000000000000532.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Dispõe sobre a implementação do Processo de Enfermagem em todo contexto socioambiental onde ocorre o cuidado de enfermagem.
