Lesões traumáticas: lacerações, escoriações e mordeduras

Lesões traumáticas: lacerações, escoriações e mordeduras

Postado em 11/10/2026

Toda ferida traumática chega com uma história: mecanismo, tempo, contaminação. Saber ler essa história orienta a limpeza, o fechamento, a profilaxia e o encaminhamento.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaNa lesão traumática, o Enfermeiro primeiro garante a segurança do paciente (sangramento controlado e lesões associadas descartadas), depois avalia mecanismo, tempo decorrido, contaminação e estruturas profundas. A limpeza abundante é o passo central, a hemostasia é feita por compressão e o fechamento depende do tipo e da idade da ferida. Toda ferida traumática exige checar a situação vacinal contra o tétano, e toda mordedura ou arranhadura de mamífero exige avaliação para profilaxia da raiva conforme o protocolo do Ministério da Saúde.

Primeiro o paciente, depois a ferida

Uma laceração no couro cabeludo chama a atenção, mas o que ameaça a vida pode estar em outro lugar. Em qualquer trauma com energia significativa, a avaliação começa pela sequência do atendimento inicial XABCDE, com controle de hemorragia exsanguinante antes de tudo. Só depois de estabilizar o paciente a atenção vai para a ferida em si.

Na ferida, controle o sangramento com compressão direta e elevação do membro quando possível. Torniquete fica reservado para hemorragia de extremidade que não cede, conforme protocolo do serviço.

Tipos de lesões traumáticas

LesãoCaracterísticasCuidado-chave
EscoriaçãoPerda superficial da epiderme por atrito, com frequência contaminada por terra ou asfaltoLimpeza cuidadosa para retirar partículas e evitar tatuagem traumática
LaceraçãoRuptura da pele por impacto ou tração, bordas irregularesAvaliar profundidade e estruturas; decidir fechamento
Ferida incisaCorte por objeto afiado, bordas regularesChecar tendões e nervos, sobretudo em mãos
Ferida perfuranteEntrada pequena, trajeto profundoRisco de corpo estranho e infecção profunda; não remover objeto empalado
AvulsãoRetalho de pele parcial ou totalmente arrancadoProteger o retalho, avaliar viabilidade e encaminhar
MordeduraCombinação de perfuração, laceração e esmagamento, com alta carga bacterianaLavagem abundante e avaliação para raiva e tétano

Avaliação da ferida traumática

  • Mecanismo: corte, esmagamento, mordedura, queda, acidente de trânsito, ferimento em ambiente rural.
  • Tempo: quanto mais tempo desde o trauma, maior o risco de infecção e mais cautela no fechamento primário.
  • Contaminação: terra, fezes, saliva, corpo estranho visível.
  • Estruturas profundas: sensibilidade e mobilidade distais, perfusão, exposição de tendão, osso ou articulação.
  • Fatores do paciente: diabetes, imunossupressão, uso de anticoagulante, alergias e situação vacinal.

Alteração de sensibilidade, perda de movimento, sangramento pulsátil, ferida sobre articulação ou suspeita de fratura exposta exigem avaliação médica e, muitas vezes, cirúrgica.

Limpeza, fechamento e cobertura

A limpeza é a intervenção que mais protege contra infecção. Irrigue com volume abundante de solução fisiológica ou, quando indicado pelo protocolo, água potável. Uma revisão Cochrane sobre água para limpeza de feridas não encontrou diferença consistente nas taxas de infecção entre água potável e solução salina, o que apoia o uso de água corrente quando não há solução estéril disponível. Retire corpos estranhos visíveis e superficiais; os profundos devem ser avaliados por imagem e removidos em ambiente adequado.

O fechamento pode ser por primeira intenção (sutura, adesivo tecidual, fitas adesivas), por segunda intenção ou de forma tardia. A decisão considera tempo, contaminação, localização e risco de infecção. O Enfermeiro capacitado pode realizar sutura em situações previstas na norma do Cofen, tema do post Sutura pelo Enfermeiro. Mordeduras têm risco elevado de infecção e a decisão de fechá-las deve ser individualizada, com participação da equipe médica.

A cobertura segue a mesma lógica das demais feridas: manter umidade adequada, absorver exsudato e proteger a pele ao redor. Escoriações extensas costumam se beneficiar de coberturas não aderentes, que reduzem a dor na troca.

A avaliação estruturada de feridas traumáticas e queimaduras, da sala de emergência ao ambulatório, é o foco do curso Assistência de Enfermagem nas Lesões Traumáticas e Queimaduras, do Grupo Nobre.

Mordeduras: raiva e tétano

Em agressão por mamífero, lave o ferimento com água e sabão de forma abundante o quanto antes. Em seguida, avalie a indicação de profilaxia da raiva segundo o protocolo do Ministério da Saúde, atualizado pela Nota Técnica nº 8/2022. Para cães e gatos sem sinais sugestivos de raiva, o protocolo prevê observação do animal por 10 dias: se ele permanecer saudável, a raiva é descartada; se desaparecer, adoecer ou morrer sem diagnóstico, a profilaxia deve ser iniciada. O esquema depende do tipo de exposição e do animal e deve ser conferido no documento vigente.

Para o tétano, verifique a caderneta e siga a conduta do Guia de Vigilância em Saúde, que considera o tipo de ferimento e o histórico vacinal. Ferimentos profundos, contaminados ou com tecido desvitalizado são considerados de maior risco.

Queimaduras: o primeiro cuidado

Queimaduras também são lesões traumáticas, com particularidades próprias. O primeiro cuidado é interromper o processo, resfriar a área com água corrente, retirar adornos e roupas não aderidas e proteger com material limpo, como orienta a cartilha do Ministério da Saúde. Classificação por profundidade, cálculo da superfície corporal queimada e critérios de encaminhamento estão no post Queimaduras: classificação e cuidados de enfermagem.

Perguntas frequentes

Posso usar água da torneira para lavar uma ferida traumática?

A evidência disponível não mostra aumento de infecção com água potável em comparação à solução salina. Siga o protocolo do serviço e prefira solução estéril quando houver exposição de estruturas profundas.

Toda mordedura de cachorro precisa de vacina antirrábica?

Não necessariamente. A indicação depende do tipo de exposição, da espécie e da possibilidade de observar o animal, conforme o protocolo do Ministério da Saúde.

Escoriação precisa de curativo fechado?

Escoriações limpas costumam cicatrizar bem em meio úmido, com cobertura não aderente. Áreas extensas ou contaminadas exigem limpeza cuidadosa e acompanhamento.

Trauma e queimaduras com segurança

Avaliação, limpeza, coberturas e encaminhamento em lesões traumáticas e queimaduras.

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Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Cartilha para tratamento de emergência das queimaduras. Brasília: Editora do Ministério da Saúde; 2012.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Nota Técnica nº 8/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Atualizações no Protocolo de Profilaxia pré, pós e reexposição da raiva humana no Brasil. Brasília; 2022.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de Vigilância em Saúde. 6ª ed. Brasília: Ministério da Saúde.
  4. Fernandez R, Griffiths R. Water for wound cleansing. Cochrane Database Syst Rev. 2012;(2):CD003861.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 787, de 21 de agosto de 2025. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem na promoção, prevenção, tratamento e reabilitação de pessoas com lesões cutâneas.
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