Cardiotocografia: como interpretar o traçado

Cardiotocografia: como interpretar o traçado

Postado em 11/10/2026

Ler um traçado de cardiotocografia é um exercício sistemático: quatro elementos do batimento fetal, a atividade uterina e o contexto clínico. Veja como fazer essa leitura com base no consenso da FIGO.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaA cardiotocografia (CTG) registra ao mesmo tempo a frequência cardíaca fetal e as contrações uterinas. A interpretação avalia linha de base (normal entre 110 e 160 bpm), variabilidade (normal entre 5 e 25 bpm), acelerações e desacelerações, sempre em relação às contrações. Pelo consenso da FIGO de 2015, o traçado é classificado como normal, suspeito ou patológico, e cada categoria orienta uma resposta clínica diferente. A leitura nunca é isolada: idade gestacional, medicações, febre e evolução do trabalho de parto mudam o significado do traçado.

O que a cardiotocografia mostra

O cardiotocógrafo tem dois transdutores: um de ultrassom Doppler, que capta o batimento cardíaco fetal, e um tocodinamômetro, que registra a atividade uterina. O resultado é um traçado com duas curvas. A de cima mostra a frequência cardíaca fetal (FCF) em batimentos por minuto. A de baixo mostra as contrações.

Antes de interpretar, confira a qualidade do registro: velocidade do papel ou da tela, ausência de perda de sinal prolongada e, principalmente, se o que está sendo captado é mesmo o feto. Na dúvida, palpe o pulso materno e compare, porque ele pode ser registrado por engano.

Os quatro elementos da frequência cardíaca fetal

O consenso da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) de 2015 para monitorização fetal intraparto define os elementos assim:

ElementoDefinição FIGO 2015Alterações
Linha de baseMédia da FCF em segmentos estáveis, sem acelerações ou desacelerações. Normal: 110 a 160 bpmTaquicardia: acima de 160 bpm por mais de 10 minutos. Bradicardia: abaixo de 110 bpm por mais de 10 minutos
VariabilidadeOscilação da FCF em torno da linha de base. Normal: 5 a 25 bpmReduzida: abaixo de 5 bpm por mais de 50 minutos. Aumentada (saltatória): acima de 25 bpm por mais de 30 minutos
AceleraçõesAumento abrupto acima de 15 bpm, com duração de mais de 15 segundos e menos de 10 minutosAntes de 32 semanas, considera-se aumento acima de 10 bpm por mais de 10 segundos
DesaceleraçõesQueda abaixo da linha de base de mais de 15 bpm, com duração de mais de 15 segundosPrecoces, variáveis, tardias e prolongadas

A presença de acelerações indica feto sem hipóxia ou acidose. A variabilidade normal reflete um sistema nervoso autônomo bem oxigenado.

Tipos de desaceleração

  • Precoces: rasas, curtas, com variabilidade preservada e espelhadas na contração. Costumam refletir compressão do polo cefálico e não indicam hipóxia.
  • Variáveis: queda rápida (atinge o nadir em até 30 segundos), recuperação rápida, forma e relação com a contração variáveis. São as mais comuns no trabalho de parto e se relacionam à compressão do cordão.
  • Tardias: início e retorno graduais, em forma de U, com o nadir após o pico da contração. Começam mais de 20 segundos depois do início da contração e sugerem resposta à hipoxemia.
  • Prolongadas: duram mais de 3 minutos. Quando passam de 5 minutos, com FCF abaixo de 80 bpm e variabilidade reduzida, costumam indicar hipóxia aguda e exigem ação imediata.

O padrão sinusoidal, uma onda regular e suave de 5 a 15 bpm de amplitude, com 3 a 5 ciclos por minuto, durando mais de 30 minutos e sem acelerações, é um achado de alerta associado a anemia fetal grave e hipóxia.

Classificação: normal, suspeito e patológico

CategoriaCaracterísticasResposta clínica
NormalLinha de base de 110 a 160 bpm, variabilidade de 5 a 25 bpm, sem desacelerações repetitivasFeto sem hipóxia ou acidose. Não há necessidade de intervenção para melhorar a oxigenação
SuspeitoFalta pelo menos uma característica de normalidade, sem achados patológicosBaixa probabilidade de hipóxia. Corrigir causas reversíveis, vigilância rigorosa ou métodos adicionais
PatológicoLinha de base abaixo de 100 bpm, variabilidade reduzida por mais de 50 minutos ou aumentada por mais de 30 minutos, padrão sinusoidal, desacelerações tardias ou prolongadas repetitivas por mais de 30 minutos (ou 20 minutos com variabilidade reduzida), desaceleração prolongada acima de 5 minutosAlta probabilidade de hipóxia ou acidose. Ação imediata para corrigir causas e avaliação médica para decidir sobre a via e o momento do parto

As causas reversíveis mais frequentes são hipotensão materna, hiperatividade uterina (inclusive por ocitocina) e posição materna em decúbito dorsal. Medidas como mudança para decúbito lateral, correção da hipotensão e redução ou suspensão da ocitocina, conforme protocolo e prescrição, fazem parte da resposta ao traçado suspeito.

CTG ou ausculta intermitente?

A CTG contínua não é obrigatória para todas as parturientes. As Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal recomendam, para a parturiente de baixo risco, ausculta intermitente com Pinard ou sonar Doppler, antes, durante e logo após uma contração, por pelo menos 1 minuto, a cada 30 minutos no primeiro período. A CTG passa a ser indicada quando surgem alterações na ausculta ou fatores de risco, segundo o protocolo do serviço. A revisão Cochrane sobre o tema associou a CTG contínua a mais cesarianas e partos instrumentais, sem redução de mortalidade perinatal ou de paralisia cerebral em comparação com a ausculta intermitente.

Perguntas frequentes

Ausência de acelerações significa sofrimento fetal?

Não necessariamente. Durante o trabalho de parto, a ausência de acelerações com linha de base e variabilidade normais tem significado incerto. Sono fetal e medicações também reduzem acelerações.

Desaceleração precoce é motivo de preocupação?

Em geral, não. Ela acompanha a contração, tem variabilidade preservada e costuma refletir compressão do polo cefálico.

A CTG anteparto usa os mesmos critérios?

Os elementos são os mesmos, mas o consenso FIGO 2015 aqui descrito é voltado à monitorização intraparto. A CTG anteparto tem critérios próprios definidos nos protocolos do serviço.

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Referências

  1. Ayres-de-Campos D, Spong CY, Chandraharan E. FIGO consensus guidelines on intrapartum fetal monitoring: Cardiotocography. Int J Gynaecol Obstet. 2015;131(1):13-24.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal: versão resumida. Brasília: Ministério da Saúde; 2017.
  3. Alfirevic Z, Devane D, Gyte GML, Cuthbert A. Continuous cardiotocography (CTG) as a form of electronic fetal monitoring (EFM) for fetal assessment during labour. Cochrane Database Syst Rev. 2017;(2):CD006066.
  4. Conselho Federal de Enfermagem. Parecer de Conselheiro Federal nº 149/2023/PLEN/COFEN. Ausculta de batimentos cardiofetais.
  5. Brasil. Lei nº 7.498, de 25 de junho de 1986. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da enfermagem.
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