Do NASF à eMulti: equipes multiprofissionais na Saúde da Família

Do NASF à eMulti: equipes multiprofissionais na Saúde da Família

Postado em 11/10/2026

A Saúde da Família nasceu como programa, virou estratégia e ganhou equipes de apoio que mudaram de nome, de financiamento e de forma de trabalhar. Entender essa trajetória ajuda o Enfermeiro a usar melhor o apoio multiprofissional no território.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaO Programa Saúde da Família foi criado em 1994 e reconhecido como Estratégia Saúde da Família na PNAB de 2006. Em 2008, a Portaria GM/MS nº 154 criou o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF), que passou a se chamar NASF-AB na PNAB de 2017 e perdeu o financiamento específico com o Previne Brasil, em 2019. Em 2023, a Portaria GM/MS nº 635 instituiu incentivo federal para as equipes multiprofissionais na Atenção Primária (eMulti), em três modalidades. O Enfermeiro da eSF segue como peça central: costuma ser quem aciona e organiza esse apoio no dia a dia da equipe.

Do programa à estratégia

O Programa Saúde da Família (PSF) foi criado em 1994 e, aos poucos, tornou-se o principal modelo de organização da atenção primária no SUS. A Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), publicada pela Portaria GM/MS nº 648/2006, passou a tratar o PSF como estratégia de reorganização da atenção básica, e não mais como um programa paralelo. A PNAB foi revista em 2011 (Portaria nº 2.488) e em 2017 (Portaria nº 2.436), que é a base das atribuições atuais da equipe.

Como estratégia, a Saúde da Família passa a ser a porta de entrada preferencial, com população adscrita e território definido. As atribuições do Enfermeiro dentro da equipe estão detalhadas no post Enfermeiro na Estratégia Saúde da Família. Aqui, o foco é outro: como evoluiu o apoio multiprofissional que trabalha junto dessas equipes.

NASF: o apoio matricial chega à atenção primária

A Portaria GM/MS nº 154, de 24 de janeiro de 2008, criou o NASF para ampliar a abrangência, o escopo e a resolutividade da atenção básica. O NASF não era porta de entrada: suas equipes, formadas por profissionais como psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais e farmacêuticos, trabalhavam apoiando as equipes de Saúde da Família.

O conceito que orientava esse trabalho era o apoio matricial, que combina duas dimensões:

  • Dimensão técnico-pedagógica: discussão de casos, educação permanente e construção conjunta de protocolos, ampliando a capacidade da eSF de resolver problemas.
  • Dimensão clínico-assistencial: atendimentos compartilhados ou específicos, quando o caso exige o núcleo de saber de outra categoria.

Na PNAB de 2017, o núcleo passou a se chamar Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica (NASF-AB). Estudos de análise normativa apontam que o termo apoio matricial perdeu destaque no texto, embora permaneça em algumas competências descritas.

Previne Brasil e o fim do financiamento específico

Em novembro de 2019, a Portaria GM/MS nº 2.979 instituiu o Previne Brasil, novo modelo de financiamento da atenção primária. Com ele, acabou o repasse federal específico para o NASF, e a Nota Técnica nº 3/2020 confirmou o fim dos parâmetros de credenciamento. Na prática, cada município passou a decidir se manteria ou não as equipes, e muitas foram desmontadas ou reorganizadas.

Para o Enfermeiro da eSF, isso significou menos retaguarda em situações que exigem outros olhares: saúde mental, reabilitação, nutrição, uso racional de medicamentos e vulnerabilidade social.

eMulti: o que a Portaria GM/MS nº 635/2023 trouxe

A Portaria GM/MS nº 635, de 22 de maio de 2023, instituiu incentivo financeiro federal de implantação, custeio e desempenho para as equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti). Elas são complementares às equipes de atenção primária e podem ser vinculadas a eSF, eAP, equipes de Consultório na Rua e unidades fluviais.

ModalidadeCarga horária semanal da equipeEquipes vinculadas
eMulti Ampliada300 horas10 a 12
eMulti Complementar200 horas5 a 9
eMulti Estratégica100 horas1 a 4

Entre as novidades em relação ao antigo NASF, a portaria ampliou o leque de profissionais, incluindo especialidades médicas como cardiologia, dermatologia, endocrinologia, pediatria e psiquiatria, além de farmacêutico clínico, profissional de educação física e sanitarista, entre outros. Também previu a adesão facultativa a ações de telessaúde, como teleconsulta e teleinterconsulta. Cada equipe de atenção primária só pode estar vinculada a uma eMulti por vez.

O desenho completo dessas equipes, com o trabalho em rede e as linhas de cuidado, é estudado no curso Estratégia para Saúde da Família e Núcleo de Apoio à Saúde da Família, do Grupo Nobre.

O papel do Enfermeiro na relação com a eMulti

A eMulti funciona melhor quando a eSF sabe o que pedir. O Enfermeiro, que conhece as famílias, acompanha as condições crônicas e coordena o processo de trabalho da equipe, costuma ser o elo entre os dois grupos. Algumas responsabilidades práticas:

  • Identificar, nas consultas e no território, os casos que se beneficiam de discussão compartilhada.
  • Levar à reunião de matriciamento casos organizados, com histórico, plano de cuidados e pergunta clara.
  • Construir o Projeto Terapêutico Singular com a eMulti nos casos complexos e registrar as metas no prontuário.
  • Organizar grupos e ações coletivas em parceria com os profissionais de apoio.
  • Acompanhar indicadores e avaliar, com a gestão, se o apoio está aumentando a resolutividade da equipe.

Perguntas frequentes

A eMulti substituiu o NASF?

Na prática, a eMulti ocupa o espaço deixado pelo NASF após o fim do financiamento específico, com novas regras, modalidades e categorias profissionais. A nota informativa da portaria orientou, provisoriamente, o cadastro dos profissionais no tipo de equipe antes usado pelo NASF-AP.

Enfermeiro pode compor a eMulti?

A portaria lista as categorias que podem integrar a eMulti. O Enfermeiro atua principalmente na eSF ou eAP, que recebe o apoio. Consulte a lista vigente do Ministério da Saúde para a composição permitida.

A eMulti atende demanda espontânea?

Ela é complementar às equipes de atenção primária e atua de forma integrada a elas. O acesso do usuário costuma ser organizado a partir da eSF, conforme pactuação local.

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Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 635, de 22 de maio de 2023. Institui incentivo financeiro federal para as equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde.
  2. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica.
  3. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 154, de 24 de janeiro de 2008. Cria os Núcleos de Apoio à Saúde da Família.
  4. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.979, de 12 de novembro de 2019. Institui o Programa Previne Brasil.
  5. Mattos MP, Gutiérrez AC, Campos GWS. Construção do referencial histórico-normativo do Núcleo Ampliado de Saúde da Família. Ciênc Saúde Coletiva. 2022;27(9):3503-16.
  6. Pinto LF, Giovanella L. Do Programa à Estratégia Saúde da Família: expansão do acesso e redução das internações por condições sensíveis à atenção básica. Ciênc Saúde Coletiva. 2018;23(6):1903-14.
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