Ultrassom na parada cardiorrespiratória: uso sem atrasar a RCP

Ultrassom na parada cardiorrespiratória: uso sem atrasar a RCP

Postado em 11/10/2026

O ultrassom pode ajudar a equipe a procurar causas reversíveis da parada, mas só tem valor se não atrasar as compressões. Entenda o que as diretrizes recomendam e como organizar o uso na sala de emergência.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaAs diretrizes da American Heart Association de 2025 consideram que o ultrassom no ponto de cuidado, feito por profissionais experientes, pode ser considerado durante a parada para buscar causas reversíveis, desde que não interrompa a reanimação. O uso para prognóstico ainda não está bem estabelecido. Estudos observacionais associam o ultrassom a pausas mais longas nas compressões, o que é o principal risco. Para o Enfermeiro capacitado, o POCUS é uma ferramenta focada, integrada ao trabalho da equipe, sem laudo e sem diagnóstico nosológico.

O que as diretrizes dizem

A Parte 9 das diretrizes de 2025 da American Heart Association, sobre suporte avançado de vida no adulto, traz duas recomendações de classe 2b (benefício incerto, evidência limitada): o uso do ultrassom no ponto de cuidado para identificar causas reversíveis não está bem estabelecido, e o uso do ecocardiograma para avaliar a função cardíaca como critério de prognóstico também não. A mensagem central do documento é que o POCUS pode ser considerado por profissionais experientes quando não interromper a reanimação.

As diretrizes de 2021 do Resuscitation Council UK, alinhadas às europeias, seguem a mesma linha:

  • Somente operadores habilidosos devem usar o ultrassom durante a parada.
  • O exame não pode causar interrupções adicionais ou mais longas nas compressões.
  • Ele pode ser útil para identificar causas tratáveis, como tamponamento cardíaco e pneumotórax.
  • A contratilidade do miocárdio ao ultrassom não deve ser usada como critério isolado para encerrar a reanimação.

O risco que precisa ser controlado: a pausa

Compressões torácicas de qualidade, com mínimas interrupções, estão entre as intervenções que mais influenciam o desfecho da parada. Um estudo observacional publicado na revista Resuscitation em 2017, de Huis in 't Veld e colaboradores, mostrou que as checagens de pulso com uso de ultrassom foram mais longas do que as checagens sem ultrassom. Outros estudos observacionais chegaram a achados parecidos. O problema não é o aparelho em si, mas a forma como ele é usado: o profissional que tenta obter a imagem durante a pausa, sem preparo prévio, tende a prolongá-la.

Como organizar o uso sem atrasar a reanimação

  1. Prepare durante as compressões. Aparelho ligado, preset cardíaco, transdutor setorial ou convexo com gel, posicionado na região subxifoide antes da pausa.
  2. Use a janela subxifoide. Ela não atrapalha quem comprime nem as pás do desfibrilador.
  3. Grave um clipe. Registre poucos segundos de imagem durante a checagem de pulso e analise depois que as compressões forem retomadas.
  4. Conte em voz alta. Um membro da equipe anuncia o tempo da pausa. A checagem de pulso não deve passar de 10 segundos.
  5. Retome as compressões mesmo sem imagem. Se a janela não aparecer, a imagem fica para o próximo ciclo.
  6. Comunique o achado de forma objetiva. Exemplos: "atividade cardíaca presente", "sem atividade visível", "derrame pericárdico visível", sempre como dado para a decisão do líder.

O papel do Enfermeiro na sala de emergência

Na parada, o Enfermeiro já tem funções essenciais: organização da equipe, acesso vascular ou intraósseo, administração de medicamentos conforme protocolo, desfibrilação, controle do tempo e registro. Com capacitação específica em ultrassonografia, ele pode também adquirir imagens focadas e cronometrar a pausa, sempre como parte de um protocolo institucional que defina quem faz o quê. As decisões sobre causas da parada, procedimentos médicos como pericardiocentese e o encerramento da reanimação cabem ao médico. O POCUS do Enfermeiro é uma avaliação focada para apoiar o cuidado, e não diagnóstico médico por imagem.

Perguntas frequentes

O ultrassom aumenta a sobrevida na parada?

Até o momento, não há evidência consistente disso. As diretrizes o tratam como ferramenta de benefício incerto, útil em situações selecionadas e desde que não atrapalhe as compressões.

Qual janela usar durante a reanimação?

A subxifoide é a mais usada por não interferir nas compressões nem nas pás. Outras janelas podem ser usadas se não aumentarem as pausas.

O Enfermeiro pode decidir encerrar a reanimação pelo ultrassom?

Não. Além de ser decisão médica, as diretrizes desaconselham usar a contratilidade ao ultrassom como critério isolado para encerrar a reanimação.

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Referências

  1. American Heart Association. Part 9: Adult Advanced Life Support. 2025 American Heart Association Guidelines for Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care. Dallas: AHA; 2025.
  2. Resuscitation Council UK. Adult advanced life support guidelines. London: RCUK; 2021.
  3. Soar J, Böttiger BW, Carli P, et al. European Resuscitation Council Guidelines 2021: Adult advanced life support. Resuscitation. 2021;161:115-151.
  4. Huis In 't Veld MA, Allison MG, Bostick DS, et al. Ultrasound use during cardiopulmonary resuscitation is associated with delays in chest compressions. Resuscitation. 2017;119:95-98.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679/2021. Ultrassonografia realizada por Enfermeiro. Brasília: Cofen; 2021.
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