Troca de Plantão em Hospitais: Boas Práticas para Enfermeiros

Troca de Plantão em Hospitais: Boas Práticas para Enfermeiros

Postado em 06/08/2026

Por que a Troca de Plantão é um Momento Crítico?

A troca de plantão em hospitais é reconhecida mundialmente como um dos momentos de maior risco para a segurança do paciente. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que falhas na comunicação durante a passagem de plantão estão entre as principais causas de eventos adversos em ambiente hospitalar, incluindo erros de medicação, atrasos no atendimento e deterioração clínica não identificada.

Para o enfermeiro, dominar as técnicas e boas práticas da troca de plantão não é apenas uma questão de organização — é um imperativo ético e profissional. Uma passagem de plantão bem executada garante a continuidade do cuidado, a segurança do paciente e o trabalho seguro da equipe que assume o turno.

O que é a Passagem de Plantão?

A passagem de plantão (também chamada de troca de turno ou handover) é o processo de transferência de responsabilidade, informação e cuidado de um profissional ou equipe para outro. Ela ocorre ao final de cada turno e deve contemplar todas as informações clínicas relevantes de cada paciente, incluindo estado atual, intercorrências do turno, prescrições vigentes, pendências e cuidados prioritários.

Uma passagem de plantão eficiente é breve, objetiva, completa e padronizada. O profissional que recebe o plantão deve ser capaz de assumir o cuidado com segurança imediatamente após a troca.

Boas Práticas na Troca de Plantão em Hospitais

1. Evite o "Piloto Automático"

Um dos erros mais comuns na troca de plantão é a realização mecânica e desatenta do processo. A correria do ambiente hospitalar, o cansaço ao final do turno e a rotinização das atividades podem levar o profissional a transmitir ou receber informações de forma superficial, sem atenção real ao que está sendo comunicado.

Pratique a presença plena durante a passagem. Reserve os minutos da troca de plantão exclusivamente para essa atividade, sem distrações como celular, conversas paralelas ou atividades simultâneas. A atenção total nesse momento pode evitar erros graves.

2. Utilize o SBAR como Ferramenta de Comunicação Estruturada

O SBAR (Situação, Background/Contexto, Avaliação e Recomendação) é uma ferramenta internacionalmente recomendada para estruturar a comunicação clínica, incluindo a passagem de plantão. Veja como aplicá-la:

S — Situação: Identifique o paciente e descreva brevemente a situação atual. Ex.: "Paciente João, 68 anos, leito 12, internado por ICC descompensada, em uso de furosemida EV."

B — Background (Contexto): Forneça o histórico clínico relevante. Ex.: "Histórico de ICC com FE reduzida, HAS e DM2. Internado há 3 dias, evoluindo com melhora do edema."

A — Avaliação: Apresente sua avaliação clínica atual. Ex.: "Neste turno, apresentou piora do padrão respiratório, FR de 28 irpm, SpO2 de 93% em ar ambiente. Iniciamos O2 suplementar 4L/min."

R — Recomendação: Indique as ações necessárias para o próximo plantonista. Ex.: "Monitorar padrão respiratório a cada 2h, verificar balanço hídrico rigoroso e acionar médico se SpO2 abaixo de 92%."

O uso sistemático do SBAR reduz omissões de informações e garante uma comunicação padronizada e completa entre os turnos.

3. Confirme a Compreensão — Não Apenas a Transmissão

Transmitir uma informação não significa que ela foi compreendida. Ao final de cada passagem de plantão, estimule o profissional que recebe o turno a repetir ou resumir as informações mais críticas (técnica chamada de readback ou teach-back). Isso confirma que a mensagem foi recebida corretamente e reduz o risco de erros por falha de comunicação.

Se você está recebendo o plantão, não hesite em fazer perguntas. Questionar é responsabilidade profissional — não é sinal de incompetência. Pergunte sobre dúvidas, pendências e qualquer informação que não tenha ficado clara.

4. Minimize Conflitos e Mantenha o Profissionalismo

O ambiente de trabalho hospitalar é naturalmente estressante, e conflitos interpessoais podem comprometer significativamente a qualidade da passagem de plantão. Desavenças entre colegas, problemas de hierarquia, tom de voz inadequado e brincadeiras fora de lugar no momento da troca criam barreiras para a comunicação eficaz e aumentam o risco de omissão de informações.

Mantenha sempre um ambiente profissional e respeitoso durante a troca de plantão. Se houver conflitos interpessoais na equipe, eles devem ser tratados em momentos e espaços adequados — nunca durante a passagem de plantão, que é um momento dedicado exclusivamente à segurança do paciente.

5. Padronize o Modelo de Passagem de Plantão

Unidades que adotam modelos padronizados de passagem de plantão apresentam menor incidência de eventos adversos e maior satisfação da equipe. A padronização pode incluir:

Formulário ou checklist de passagem de plantão com campos obrigatórios;

Ordem fixa de apresentação dos pacientes (ex.: sempre do leito 01 ao último);

Registro em prontuário eletrônico com campos estruturados;

Horário fixo e local determinado para a passagem de plantão;

Presença obrigatória de todos os membros da equipe que estão entrando e saindo do turno.

Se você atua como enfermeiro assistencial e ainda não tem um modelo padronizado na sua unidade, leve a proposta à coordenação de enfermagem. Apresente dados e referências sobre a importância da padronização — essa é uma contribuição valiosa para a segurança da sua equipe e dos seus pacientes.

6. Inclua a Beira do Leito na Passagem de Plantão

A passagem de plantão à beira do leito (bedside handover) é uma estratégia crescentemente recomendada, pois permite que o enfermeiro que entra no turno visualize o paciente diretamente, confirme informações e estabeleça vínculo inicial com ele. Estudos mostram que essa prática aumenta a satisfação do paciente, reduz erros e melhora a percepção da qualidade do cuidado.

Ao realizar a passagem à beira do leito, inclua o paciente na conversa sempre que clinicamente possível — ele pode fornecer informações complementares e se sentir mais seguro e participativo no próprio cuidado.

7. Registre as Informações Críticas por Escrito

A passagem de plantão verbal, sem registro complementar, aumenta o risco de perda de informações. Utilize o prontuário eletrônico ou impresso para documentar as principais ocorrências do turno, intercorrências, alterações de conduta e pendências. O registro escrito serve como referência segura para o plantonista que assumiu e também como documentação legal.

Nunca encerre seu turno sem registrar adequadamente as evoluções de enfermagem. Esse é um dever ético e legal previsto na legislação profissional da enfermagem brasileira.

8. Priorize os Pacientes Críticos e Instáveis

Em unidades com muitos pacientes, pode ser inviável fazer uma passagem detalhada de todos. Nesse caso, adote uma estratégia de priorização: comece sempre pelos pacientes mais instáveis ou que requerem atenção imediata. Os pacientes estáveis podem ter uma passagem mais breve, mas ainda devem ser mencionados, com destaque para qualquer pendência ou observação relevante.

Ferramentas e Tecnologias de Apoio à Passagem de Plantão

Atualmente, diversas ferramentas tecnológicas auxiliam na padronização e segurança da passagem de plantão, como sistemas de prontuário eletrônico com campos estruturados para handover, aplicativos de comunicação clínica, checklists digitais e plataformas de telemedicina para unidades com cobertura remota. O enfermeiro moderno deve conhecer e saber utilizar essas ferramentas como aliadas na promoção da segurança do paciente.

A Troca de Plantão como Indicador de Qualidade

Instituições hospitalares de excelência tratam a qualidade da passagem de plantão como um indicador de gestão. Auditorias regulares do processo, feedback para a equipe e capacitações periódicas fazem parte da cultura de segurança dessas organizações. Se o seu hospital ainda não tem esse olhar, você pode ser o agente de mudança — proponha, apresente dados e construa uma cultura mais segura em sua unidade.

Conclusão

A troca de plantão em hospitais vai muito além de uma formalidade burocrática. É um momento de transferência de responsabilidade e, acima de tudo, de cuidado com a vida humana. Quando feita com atenção, comunicação eficaz e protocolos claros, ela protege o paciente, a equipe e a instituição.

Invista na qualidade da sua passagem de plantão. Utilize o SBAR, padronize o processo na sua unidade, registre adequadamente e mantenha sempre o foco no que importa: a segurança e o bem-estar do paciente.

Você tem alguma experiência ou dica sobre a troca de plantão? Compartilhe nos comentários e contribua com a nossa comunidade de enfermagem!

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