Ultrassom para confirmar posição de sonda: o que diz a evidência

Ultrassom para confirmar posição de sonda: o que diz a evidência

Postado em 11/10/2026

O ultrassom ajuda a acompanhar a passagem da sonda e a perceber desvios cedo, mas a evidência ainda não permite usá-lo sozinho para liberar dieta. Entenda onde ele entra no protocolo.

Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.

Resposta rápidaA revisão Cochrane atualizada em 2024 concluiu que o ultrassom, isolado, não tem acurácia suficiente para confirmar a posição de sondas gástricas, especialmente as de alimentação. Ele pode ajudar a detectar mau posicionamento quando a radiografia não está disponível e funciona melhor combinado a outros testes. No Brasil, a inserção de sondas oro/nasogástricas e nasoentéricas é privativa do Enfermeiro (Res. Cofen nº 619/2019), que deve encaminhar o paciente com sonda nasoentérica para confirmação radiológica. O POCUS do Enfermeiro entra como apoio focado ao procedimento, sem emissão de laudo.

Por que a confirmação da posição é tão importante

Uma sonda posicionada na via aérea, no esôfago ou enrolada na faringe pode causar pneumonia aspirativa, pneumotórax e infusão de dieta no pulmão. O risco é maior em pacientes sedados, intubados, com rebaixamento do nível de consciência ou com reflexo de tosse diminuído, justamente os que mais precisam de nutrição enteral. Por isso, nenhum método isolado e simples, como a ausculta do "chiado" após injeção de ar, deve ser usado para liberar a dieta. As recomendações de segurança da ASPEN para terapia nutricional enteral orientam abandonar o método auscultatório como teste de confirmação.

O que a revisão Cochrane mostrou

A revisão sistemática Cochrane sobre ultrassonografia para confirmação de sonda gástrica, de Tsujimoto e colaboradores, teve versão atualizada publicada em 2024. Os principais achados foram:

  • O ultrassom, como teste único, não tem acurácia suficiente para confirmar a posição de sondas gástricas.
  • Para sondas de alimentação, o ultrassom sozinho não foi suficiente. Para sondas de drenagem, pode ser útil quando combinado a outros testes.
  • A sensibilidade para identificar a sonda no estômago foi alta em várias técnicas, mas a especificidade (capacidade de reconhecer a sonda mal posicionada) teve certeza muito baixa, porque poucos estudos incluíram sondas fora do lugar.
  • Onde a radiografia não está disponível com rapidez, o ultrassom pode ajudar a detectar sondas mal posicionadas.

Na prática, isso significa que ver a sonda no estômago é um bom sinal, mas não garante segurança suficiente para iniciar dieta sem seguir o protocolo institucional de confirmação.

Como o ultrassom é usado na sondagem

Os estudos descrevem duas janelas principais, que podem ser usadas em sequência:

JanelaTransdutorO que se procura
CervicalLinear, transversal ao pescoço, lateral à traqueiaEsôfago com a sonda em seu interior, vista como estrutura hiperecoica com sombra acústica. Ajuda a perceber desvio para a via aérea durante a passagem.
EpigástricaConvexo ou setorial, abaixo do apêndice xifoidePonta da sonda no estômago ou turbilhonamento no lúmen gástrico após injeção de pequeno volume de ar ou soro, conforme protocolo.

A janela cervical tem valor sobretudo durante a inserção, porque permite corrigir a trajetória antes que a sonda avance. A janela epigástrica pode ser limitada por gases, obesidade, curativos e dor abdominal. Em sondas nasoentéricas, cuja ponta deve ficar após o piloro, o ultrassom tem ainda mais limitações e a radiografia segue como padrão.

Onde o POCUS do Enfermeiro se encaixa

O ultrassom realizado pelo Enfermeiro é uma avaliação focada, feita para responder a uma pergunta objetiva do cuidado: a sonda está no trajeto esperado? Não é exame de diagnóstico médico por imagem e não gera laudo. Os achados entram no registro de enfermagem e orientam a próxima etapa do protocolo, como manter a sonda e solicitar a confirmação radiológica, reposicionar ou comunicar a equipe médica.

O tema ganhou espaço institucional: em 2025, o Cofen divulgou um e-book produzido em mestrado profissional apoiado pelo acordo Capes/Cofen, com um algoritmo de sondagem de alimentação transnasal assistida por POCUS, disponível gratuitamente no CofenPlay.

Perguntas frequentes

O ultrassom pode substituir o raio X na sonda nasoentérica?

Não. A Resolução Cofen nº 619/2019 prevê o encaminhamento para exame radiológico, e a evidência atual não sustenta o ultrassom isolado para confirmar sondas de alimentação.

Técnico de enfermagem pode usar o ultrassom na sondagem?

Não. Na equipe de enfermagem, a ultrassonografia é privativa do Enfermeiro com capacitação específica, e a inserção da sonda também é privativa do Enfermeiro.

Então vale a pena usar o ultrassom?

Sim, como apoio. Ele ajuda a perceber desvios durante a passagem e a detectar mau posicionamento quando a radiografia demora, sempre dentro de um protocolo que define a confirmação final.

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Referências

  1. Tsujimoto Y, Kataoka Y, Banno M, Anan K, Shiroshita A, Jujo S. Ultrasonography for confirmation of gastric tube placement. Cochrane Database Syst Rev. 2024;(7):CD012083.
  2. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 619/2019. Normatiza a atuação da Equipe de Enfermagem na Sondagem Oro/nasogástrica e Nasoentérica. Brasília: Cofen; 2019.
  3. Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679/2021. Ultrassonografia realizada por Enfermeiro. Brasília: Cofen; 2021.
  4. Boullata JI, Carrera AL, Harvey L, et al. ASPEN Safe Practices for Enteral Nutrition Therapy. JPEN J Parenter Enteral Nutr. 2017;41(1):15-103.
  5. Conselho Federal de Enfermagem. E-book orienta uso de ultrassom para sondagem de alimentação transnasal. Brasília: Cofen; 2025.
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