Avaliação da veia cava inferior ao ultrassom
Postado em 11/10/2026
A veia cava inferior virou presença frequente nas discussões sobre volemia na UTI e na emergência. Entenda como ela é avaliada, o que a medida mostra e, principalmente, o que ela não mostra.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaA veia cava inferior (VCI) é avaliada pela janela subcostal, em corte longitudinal, medindo o diâmetro a cerca de 1 a 2 cm da junção com o átrio direito e observando sua variação com a respiração, de preferência no modo M. Na diretriz da Sociedade Americana de Ecocardiografia, VCI com até 2,1 cm e colapso maior que 50% com a inspiração sugere pressão de átrio direito normal, enquanto VCI maior que 2,1 cm e colapso menor que 50% sugere pressão elevada. A medida isolada não define se o paciente vai responder a volume e sofre interferência da ventilação mecânica e da pressão abdominal. Para o Enfermeiro, é um dado focado de monitoramento, sem laudo e sem diagnóstico médico.
O que a veia cava inferior reflete
A VCI é um vaso de paredes finas e complacente que leva o sangue da metade inferior do corpo ao átrio direito. Seu diâmetro e a variação com a respiração dependem da pressão dentro do átrio direito e das pressões no tórax e no abdome. Por isso, a VCI foi estudada como estimativa não invasiva da pressão de átrio direito, em trabalhos como o de Kircher e colaboradores, de 1990, e incorporada às diretrizes de ecocardiografia.
Ao longo dos anos, o uso se estendeu para a tentativa de prever a resposta à reposição volêmica. É justamente nesse ponto que surgem as maiores limitações.
Como fazer a avaliação
- Transdutor: setorial ou convexo, de baixa frequência, com preset abdominal ou cardíaco.
- Posição: paciente em decúbito dorsal. Posicione o transdutor logo abaixo do apêndice xifoide, com o marcador voltado para a cabeça, levemente à direita da linha média.
- Identifique a VCI entrando no átrio direito, em corte longitudinal. Confirme que não é a aorta: a aorta pulsa, tem parede espessa e fica à esquerda.
- Meça o diâmetro a cerca de 1 a 2 cm da junção com o átrio direito, perpendicular ao vaso, de borda interna a borda interna. Não meça exatamente na junção.
- Avalie a variação respiratória com o modo M, posicionando a linha do cursor no mesmo ponto. No paciente em respiração espontânea, a diretriz descreve a manobra de fungada (sniff) para avaliar o colapso.
- Registre diâmetro máximo, diâmetro mínimo, padrão respiratório e se o paciente está em ventilação espontânea ou mecânica.
Como os valores são descritos na diretriz
| Diâmetro da VCI | Colapso com a inspiração | Estimativa de pressão de átrio direito |
|---|---|---|
| Até 2,1 cm | Maior que 50% | Normal (cerca de 3 mmHg) |
| Maior que 2,1 cm | Menor que 50% | Elevada (cerca de 15 mmHg) |
| Combinações que não se encaixam acima | Variável | Intermediária (cerca de 8 mmHg) |
Esses cortes vêm da diretriz de avaliação ecocardiográfica do coração direito publicada por Rudski e colaboradores em 2010, para pacientes em respiração espontânea. Eles não foram desenhados para orientar, sozinhos, a decisão de administrar volume.
Limitações que mudam a interpretação
Uma revisão publicada no Intensive Care Medicine em 2016, por Via, Tavazzi e Price, descreveu situações em que a VCI falha em prever a resposta a fluidos. Entre elas:
- Ventilação mecânica com pressão positiva: a dinâmica se inverte e a VCI tende a se distender na inspiração. Os índices de colapso da respiração espontânea não se aplicam.
- Esforço respiratório intenso: pode provocar colapso acentuado mesmo sem hipovolemia.
- Hipertensão intra-abdominal: comprime a VCI e falseia o diâmetro.
- Disfunção do ventrículo direito, insuficiência tricúspide e tamponamento: mantêm a VCI dilatada independentemente da volemia.
- Atletas e indivíduos com VCI naturalmente ampla, além de imagens obtidas em corte oblíquo, que subestimam o diâmetro.
Como o dado entra no Processo de Enfermagem
Dentro de um protocolo institucional, a avaliação seriada da VCI pode complementar a avaliação hemodinâmica feita pela enfermagem, junto com pressão arterial, frequência cardíaca, perfusão periférica, débito urinário, balanço hídrico e lactato quando disponível. O valor está na tendência e na integração com a clínica, e não em um número isolado.
Perguntas frequentes
VCI colabada significa que o paciente precisa de soro?
Não necessariamente. O colapso pode ocorrer por esforço respiratório e a decisão sobre volume é médica, baseada em vários parâmetros.
Posso usar os mesmos valores no paciente intubado?
Não. Na ventilação com pressão positiva o comportamento da VCI muda e os cortes da respiração espontânea não se aplicam.
Qual transdutor usar?
O setorial ou o convexo, de baixa frequência, que alcançam a profundidade necessária pela janela subcostal.
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Referências
- Rudski LG, Lai WW, Afilalo J, et al. Guidelines for the echocardiographic assessment of the right heart in adults: a report from the American Society of Echocardiography. J Am Soc Echocardiogr. 2010;23(7):685-713.
- Kircher BJ, Himelman RB, Schiller NB. Noninvasive estimation of right atrial pressure from the inspiratory collapse of the inferior vena cava. Am J Cardiol. 1990;66(4):493-6.
- Via G, Tavazzi G, Price S. Ten situations where inferior vena cava ultrasound may fail to accurately predict fluid responsiveness: a physiologically based point of view. Intensive Care Med. 2016;42(7):1164-7.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679, de 20 de agosto de 2021.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 736, de 17 de janeiro de 2024. Processo de Enfermagem.
