Protocolo FAST e eFAST: o que o Enfermeiro precisa saber
Postado em 11/10/2026
O FAST é uma das aplicações mais conhecidas do ultrassom no ponto de atendimento. Entenda as janelas, a lógica do exame e onde o Enfermeiro se encaixa na equipe de trauma.
Por Equipe Editorial Grupo Nobre. Revisado em 11/10/2026.
Resposta rápidaO FAST (Focused Assessment with Sonography for Trauma) é um exame ultrassonográfico rápido e focado que procura líquido livre no abdome, na pelve e no pericárdio em vítimas de trauma. O eFAST acrescenta janelas torácicas para pesquisar pneumotórax e derrame pleural. É um exame de triagem: um resultado positivo acelera decisões, mas um resultado negativo não exclui lesão. O Enfermeiro capacitado pode realizar ultrassonografia focada conforme a Resolução Cofen nº 679/2021, sem emitir laudo e sem fazer diagnóstico médico.
O que é o FAST e por que ele surgiu
O FAST foi padronizado em uma conferência internacional de consenso publicada no Journal of Trauma em 1999. A proposta era simples: usar o ultrassom na sala de emergência para responder a uma pergunta objetiva, se há ou não líquido livre em cavidades onde ele não deveria estar. No trauma, esse líquido costuma ser sangue.
A versão estendida, o eFAST, incorporou a avaliação do tórax para pneumotórax a partir de estudos como o de Kirkpatrick e colaboradores, de 2004. O exame é repetível, não usa radiação e pode ser feito sem retirar o paciente da sala de atendimento, o que explica sua presença nos programas de suporte ao trauma, como o ATLS.
As janelas do FAST e do eFAST
| Janela | Onde posicionar | O que se procura |
|---|---|---|
| Quadrante superior direito | Linha axilar média, entre as últimas costelas à direita | Líquido no espaço hepatorrenal (espaço de Morison) |
| Quadrante superior esquerdo | Linha axilar posterior à esquerda, mais alta que à direita | Líquido no espaço esplenorrenal e subfrênico |
| Pélvica | Acima da sínfise púbica, cortes transversal e longitudinal | Líquido atrás da bexiga ou do útero |
| Subxifoide | Abaixo do apêndice xifoide, angulando para o tórax | Derrame pericárdico |
| Torácicas anteriores (eFAST) | Região anterior do tórax, bilateral | Deslizamento pleural, para avaliar pneumotórax |
| Bases pulmonares (eFAST) | Acima do diafragma, nas janelas abdominais laterais | Derrame pleural ou hemotórax |
O transdutor mais usado nas janelas abdominais e cardíaca é o convexo ou o setorial, de baixa frequência. Para o deslizamento pleural, muitos serviços preferem o linear, pela melhor resolução superficial.
Como interpretar sem extrapolar
O líquido livre aparece como uma faixa anecoica (preta) entre órgãos. No tórax, a presença de deslizamento pleural torna improvável um pneumotórax naquele ponto, enquanto sua ausência é um achado que precisa ser comunicado imediatamente. Alguns pontos são essenciais para não errar:
- FAST negativo não exclui lesão. Lesões de víscera oca, de retroperitônio e sangramentos pequenos podem não ser vistos. Uma revisão Cochrane sobre ultrassom no trauma fechado reforça que o exame não deve ser usado isoladamente para descartar lesões.
- Repetir é parte do protocolo. Um exame inicial negativo pode se tornar positivo com a evolução do sangramento.
- Há falsos positivos. Ascite prévia, diálise peritoneal, líquido fisiológico na pelve de mulheres e gordura pericárdica podem confundir.
- O exame não quantifica com precisão o volume de sangramento nem identifica o órgão lesado.
Onde o Enfermeiro atua no FAST
A Resolução Cofen nº 679/2021 normatiza a ultrassonografia pelo Enfermeiro tanto no ponto de atendimento quanto no ambiente pré-hospitalar, o que inclui cenários de trauma. Na prática, o papel do Enfermeiro varia conforme o serviço e o protocolo institucional:
- Preparo e organização: aparelho pronto, carregado, com presets configurados, gel e material de limpeza do transdutor.
- Execução do exame focado, quando capacitado e previsto em protocolo, registrando as janelas avaliadas e os achados descritivos, sem conclusão diagnóstica.
- Comunicação imediata de achados como líquido livre ou ausência de deslizamento pleural ao médico, de preferência com estrutura SBAR.
- Reavaliação seriada em pacientes com mudança hemodinâmica, conforme orientação da equipe.
- Registro no prontuário dentro das etapas do Processo de Enfermagem.
Como desenvolver competência
O FAST parece simples, mas exige prática supervisionada para reconhecer imagens normais, artefatos e armadilhas. Um caminho seguro inclui estudo da anatomia ultrassonográfica, treino em modelos e simuladores, exames supervisionados e revisão de imagens com profissionais experientes. A capacitação específica é exigência da Resolução Cofen nº 679/2021.
Perguntas frequentes
O Enfermeiro pode fazer FAST no SAMU?
A Resolução Cofen nº 679/2021 inclui o ambiente pré-hospitalar. A aplicação depende de capacitação, equipamento e protocolo do serviço.
Qual a diferença entre FAST e eFAST?
O eFAST acrescenta a avaliação do tórax para pneumotórax e derrame pleural às janelas abdominais e pericárdica do FAST.
Um FAST negativo libera o paciente?
Não. O exame negativo não exclui lesão e a conduta depende da avaliação médica e de outros exames.
Aprenda janelas, protocolos e limites legais na habilitação em ultrassonografia do Grupo Nobre.
Referências
- Scalea TM, et al. Focused Assessment with Sonography for Trauma (FAST): results from an international consensus conference. J Trauma. 1999;46(3):466-72.
- Kirkpatrick AW, et al. Hand-held thoracic sonography for detecting post-traumatic pneumothoraces: the Extended Focused Assessment with Sonography for Trauma (EFAST). J Trauma. 2004;57(2):288-95.
- Stengel D, et al. Point-of-care ultrasonography for diagnosing thoracoabdominal injuries in patients with blunt trauma. Cochrane Database Syst Rev. 2018;12:CD012669.
- American College of Surgeons. Advanced Trauma Life Support (ATLS): Student Course Manual. 10th ed. Chicago: ACS; 2018.
- Conselho Federal de Enfermagem. Resolução Cofen nº 679, de 20 de agosto de 2021.
